Lei e Evangelhos nas Escrituras - Parte I | Série Lei e Evangelho
- Christian Lo Iacono

- 1 de ago. de 2024
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9 Que se conclui? Temos nós alguma vantagem? Não, de forma nenhuma. Pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado.10 Como está escrito:
"Não há justo, nem um sequer,11 não há quem entenda, não há quem busque a Deus.
12 Todos se desviaram e juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem,
não há nem um sequer.
13 A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua enganam, veneno de víbora está nos seus lábios.
14 A boca, eles a têm cheia de maldição e amargura; 15 os seus pés são velozes para derramar sangue.
16 Nos seus caminhos, há destruição e miséria; 17 eles não conhecem o caminho da paz.
18 Não há temor de Deus diante de seus olhos."
19 Ora, sabemos que tudo o que a lei diz é dito aos que vivem sob a lei, para que toda boca se cale, e todo o mundo seja culpável diante de Deus.20 Porque ninguém será justificado diante de Deus por obras da lei, pois pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.
21 Mas, agora, sem lei, a justiça de Deus se manifestou, sendo testemunhada pela Lei e pelos Profetas.22 É a justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem. Porque não há distinção,23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,25 a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé. Deus fez isso para manifestar a sua justiça, por ter ele, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos,26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.
27 Onde fica, então, o orgulho? Foi totalmente excluído. Por meio de que lei? A lei das obras? Não! Pelo contrário, por meio da lei da fé.28 Concluímos, pois, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.
Romanos 3.9-28
Vivemos em uma cultura decadente, na qual o bom é chamado de mau, e o mau é chamado de bom, bem como Paulo escreveu: “trocaram a verdade de Deus pela mentira” (Rm 1.25). Ou seja, nem tudo é subjetivo, como muitos tentam nos fazer crer. Mas recentes decisões do STF às vezes nos deixam com certa dúvida sobre a possibilidade da existência de valores objetivos, como o da justiça, quando consideramos a luta contra a corrupção no país, por exemplo.
Além disso, o casamento e a família têm sido severamente atacados, o direito ao aborto tem sido crescentemente reivindicado e a livre “orientação de gênero” é vista como um dos direitos mais elevados. Premissas morais básicas são questionadas e, em muitos casos, rejeitadas em nome da “tolerância e da diversidade”. Nem vou comentar a recente abertura dos jogos olímpicos.
Assim, os cristãos hoje se defrontam com uma dupla tentação. Por um lado, há uma pressão crescente para que a igreja se ajuste ao espírito da época. Tentativas são feitas para redefinir a Lei de Deus ou tornar seus limites mais elásticos. Os mandamentos de Deus, assim, acabam sendo vistos como princípios gerais, valores auto escolhidos ou relíquias de uma visão antiga de mundo que não mais se aplicam dentro da fluidez da cultura pós-moderna; os mandamentos não são vistos como a Palavra de Deus que sentencia e condena o pecado.
Por outro lado, existe a tentação de os cristãos focarem na moralidade. Pensam que o objetivo principal da igreja é o de produzir uma cultura que ande na contramão daquela do nosso mundo, uma cultura definida por valores bíblicos. O Evangelho, nesse caso, é posto a serviço da Lei, tornando-se um meio para a moralidade, e não mais a Palavra de Deus que perdoa pecados por causa de Jesus.
Ora, a única mudança que a Lei pode trabalhar é a morte (Rm 7.9-11). A Lei não apenas repreende; ela mata. Fecha todos os caminhos que o pecador usaria em uma vã tentativa de escapar de Deus. Onde a Lei não encontra seu fim em Cristo (Rm 10.4: “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê”), levará ao orgulho ou desespero. Tal manuseio incorreto da Lei na pregação ou no testemunho leva ao que Lutero chama "fé de turco". Em um sermão de 1532 sobre Gálatas 3.23-24, Lutero diz o seguinte:
“Por essa razão, a sua fé é, para dizer o melhor, pura e simplesmente uma fé de turco que se baseia unicamente na letra da Lei nua e crua e em atos exteriores de fazer ou não fazer algo, como ‘Não matarás’ ou ‘Não furtarás’. Entendem que a Lei é satisfeita quando o homem não usa seu punho para um homicídio, não rouba a propriedade de alguém, e assim por diante. Em resumo, acreditam que este tipo de pietismo exterior é justiça que prevalece diante de Deus. No entanto, tal doutrina e fé são falsas e erradas, mesmo que as obras praticadas sejam em si boas e tenham sido ordenadas por Deus.”
Somente o Evangelho tem o poder de perdoar pecados e tornar vivo o coração que está morto para Deus. Essa é a razão pela qual o Pastor C. F. W. Walther (1811-87) insiste que o Evangelho deve sempre predominar na pregação e no testemunho cristãos (Lei e Evangelho: Como Ler e Aplicar a Bíblia).
Aprendendo a distinguir Lei e Evangelho
Martinho Lutero escreveu:
“Não devemos pregar somente uma dessas palavras de Deus, mas as duas; devemos tirar de dentro de nosso tesouro coisas novas e coisas velhas, a voz da Lei bem como a Palavra da graça (Mateus 13.52). Necessitamos mostrar a voz da Lei para que o homem seja levado a temer e a chegar ao conhecimento de seus pecados e assim ser convertido ao arrependimento e a uma vida melhor. Mas não devemos parar por aí, porque isso somente levaria a sofrimentos, e não ao comprometimento; à punição, e não à cura; à matança, e não à vida. Estaríamos conduzindo ao inferno, e não trazendo novamente de volta; estaríamos humilhando, e não exaltando. Portanto, necessitamos também pregar a Palavra da graça e a promessa do perdão por meio do qual a fé é ensinada e despertada. Sem essa Palavra da graça, as obras da Lei (contrição, penitência e todo o restante) são feitas e ensinadas em vão.”
As pessoas deveriam evitar ir a um restaurante onde o chefe de cozinha não sabe dizer qual é a diferença entre cianeto e sal. Uma pitada de sal dá sabor ao alimento,
mas um toque de cianeto é letal. As distinções fazem diferença. Onde são feitas de maneira inadequada, os resultados podem ser mortais. O Pastor Walther, no século 19, sabia que, onde a Lei de Deus não é corretamente distinguida do Evangelho, a vida espiritual das pessoas é colocada em perigo, conduzida à futilidade e ao desespero, ou a uma autoconfiança e arrogância que nega a Cristo. O resultado final é o mesmo: descrença que condena. Onde Lei e Evangelho são confundidos e misturados, a fé é colocada em perigo, e a incerteza dominará.
Examinando as Escrituras, vemos que Deus fala aos seres humanos de duas formas fundamentalmente diferentes, e até opostas. As Escrituras identificam essa dupla forma de falar como Lei e Evangelho. "Os conteúdos doutrinários das Sagradas Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, consistem de duas doutrinas que diferem fundamentalmente entre si. Essas duas doutrinas são Lei e Evangelho” (Walther). Longe de ser uma habilidade mecânica que possa ser dominada sem dificuldade, Walther reconhecia, assim como Lutero, que distinguir Lei e Evangelho é uma arte, uma capacidade adquirida, forjada pelo Espírito na medida em que a vida do artista é imersa nas Escrituras ao mesmo tempo que é temperada na fornalha da aflição.
Muito mais do que uma técnica ou um método adquiridos por meio do estudo acadêmico, a habilidade para conhecer e aplicar tanto Lei como Evangelho vem somente pela experiência de ouvir e confiar na Palavra de Deus, mesmo que vivamos em luta constante com o pecado e o diabo. Walther, sem dúvida, teria concordado com Hans Joachim Iwand na sua descrição da luta: "Paz com Deus significa no mesmo fôlego guerra consigo mesmo e luta com o mundo".
Assista o Sermão completo no Youtube:

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